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Infarto e choque circulatório: da isquemia focal à falência de perfusão sistêmica

O infarto é a necrose por perda regional de suprimento de sangue: seu aspecto depende da circulação do órgão (hemorrágico no pulmão, de circulação dupla; no rim, segundo um tratado de patologia veterinária, hemorrágico no início e pálido depois) e o tipo de necrose varia (coagulativa no coração, liquefativa no cérebro), enquanto o choque é a falência da circulação, por falha da bomba, do volume, dos grandes vasos ou dos pequenos vasos. Esta unidade segue a diretriz brasileira de IAM sem supradesnível (SBC, 2021), a definição de sepse da Surviving Sepsis Campaign e revisões abertas, no mecanismo dos anos 1-2 e sem manejo. Ficam de fora a regra geral do infarto branco e vermelho (inclusive o venoso), a transformação hemorrágica cerebral, a sequência temporal completa do infarto do miocárdio e o tratamento do choque.

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Essential

  1. Um evento coronariano — ruptura ou erosão de placa aterosclerótica, com formação de trombo oclusivo ou suboclusivo (IAM tipo 1) — limita o fluxo, e o fluxo coronariano deixa de atender a demanda do miocárdio; vasospasmo, embolia ou dissecção coronariana também podem limitar o fluxo.
  2. Isquemia: restrição do suprimento de sangue, com falta de oxigênio; cessa o metabolismo aeróbico, a produção de fosfatos de alta energia (ATP) fica inadequada e se acumulam metabólitos como o ácido lático.
  3. A contratilidade do miocárdio cessa logo após o início da isquemia, e as alterações iniciais de ultraestrutura, que surgem em poucos segundos, são potencialmente reversíveis.
  4. Se a redução do fluxo é prolongada e grave — a duração e a gravidade determinam o desfecho —, os miócitos morrem: necrose coagulativa, com desnaturação de proteínas estruturais, a primeira alteração da célula após o infarto.
  5. A ruptura das membranas dos miócitos necróticos deixa vazar macromoléculas intracelulares para o interstício e daí para a microvasculatura e os linfáticos: é a base da elevação das enzimas cardíacas no sangue.
  6. (Sequência parcial.) Depois da necrose, vêm o influxo de neutrófilos (em torno de 12 a 24 horas), a perda de núcleos, a fagocitose por macrófagos e a formação de tecido de granulação nas margens.
  1. Algo falha na circulação: a bomba (cardiogênico), o volume (hipovolêmico), os grandes vasos (obstrução ou pós-carga elevada) ou os pequenos vasos (distributivo, com desvio do fluxo).
  2. A circulação deixa de fornecer às células oxigênio suficiente para funcionar de forma ideal: é a falência circulatória que define o choque.
  3. A hipotensão arterial é um sinal cardinal, mas nem sempre está presente: a vasoconstrição geral do simpático ativado pode mascarar a queda da pressão.
  4. A perfusão alterada aparece em três 'janelas': na pele (fluxo capilar diminuído; pele fria e úmida, tipicamente nos choques de baixo débito; no distributivo as extremidades podem estar quentes), no rim (oligúria) e no cérebro (obnubilação, desorientação ou confusão novas).
  5. O lactato sobe (normal em torno de 1 mmol/L); valores acima de 2 mmol/L são considerados reflexo de choque.

In the clinic

  • Órgão com circulação dupla — pulmão · O infarto é tipicamente hemorrágico: no pulmão é uma área de necrose coagulativa dentro de uma zona de hemorragia, em geral subpleural e em cunha. · O sangue entra no tecido infartado por circulação colateral, por fluxo restabelecido ou por veias vizinhas; no pulmão, a pressão nas artérias brônquicas aumenta para perfundir os capilares, e a isquemia do endotélio eleva a permeabilidade capilar, o que deixa os eritrócitos passarem para os alvéolos.
  • Órgão de artéria terminal — rim · Segundo o tratado de patologia veterinária de Zachary, o infarto agudo é hemorrágico no início; em poucos dias os macrófagos removem o sangue e o infarto fica pálido, nitidamente delimitado por uma borda vermelha. · Os macrófagos retiram o sangue do infarto hemorrágico agudo; a borda vermelha vem da hiperemia, da hemorragia e da inflamação aguda do parênquima vizinho.
  • Fígado · Pouco propenso a infarto. · Tem circulação dupla (e alta capacidade regenerativa, segundo a fonte). Pulmão e fígado têm circulação dupla e o efeito difere: no fígado a dupla irrigação o torna pouco propenso a infarto; no pulmão, quando a artéria pulmonar é ocluída e há infarto, a circulação brônquica e a permeabilidade capilar fazem dele tipicamente hemorrágico.
  • Coração (e outros tecidos em que a resposta típica à isquemia é a coagulativa) · A necrose é coagulativa: as proteínas estruturais se desnaturam e a arquitetura do tecido se preserva por mais tempo depois da morte celular. · A isquemia desnatura as proteínas estruturais da célula (a primeira alteração depois do infarto), e a coagulativa é a resposta mais típica à isquemia nos tecidos em geral; é a desnaturação, e não a digestão enzimática, que predomina, e por isso a arquitetura persiste.
  • Cérebro · A necrose termina liquefativa: o tecido necrótico se converte em fase fluida. Os neurônios mostram primeiro aspecto coagulativo; depois a glia também necrosa e começa a liquefação do neurópilo. · O parênquima do sistema nervoso central não tem interstício fibroso que sustente a estrutura, e suas células são ricas em lipídios e enzimas líticas. Em camundongos, propõe-se ainda que as células fagocíticas do infarto não conseguem eliminar bem o debris de mielina rico em colesterol (hipótese).

A hipotensão arterial é um sinal cardinal do choque, mas nem sempre está presente, porque a vasoconstrição geral causada pelo simpático ativado pode mascarar a queda da pressão.

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O que é um infarto e que forma ele costuma assumir dentro do órgão?

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Answer in Assessment
Sources (7)
  1. Ghafoor M, Kamal M, Nadeem U, Husain AN. Educational Case: Myocardial Infarction: Histopathology and Timing of Changes. Acad Pathol. 2020;7:2374289520976639.
    An inability of coronary blood flow to meet the myocardial demand is the major cause of MI. Most commonly, there is a narrowing of the coronary arteries due to atherosclerotic plaques with varying degrees of superimposed changes, for example, thrombosis and vasospasm.
  2. Nicolau JC, Feitosa Filho GS, Petriz JL, et al. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Angina Instável e Infarto Agudo do Miocárdio sem Supradesnível do Segmento ST - 2021. Arq Bras Cardiol. 2021;117(1):181-264.
    IAM espontâneo relacionado com isquemia miocárdica secundária a evento coronariano como ruptura ou erosão de placa aterosclerótica coronariana
  3. Vincent JL, Ince C, Bakker J. Clinical review: Circulatory shock - an update: a tribute to Professor Max Harry Weil. Crit Care. 2012;16(6):239.
    Put in very basic terms, something is wrong with the pump (cardiogenic), with the volume (hypovolemic), with the major vessels (high afterload/obstruction) or with the small vessels (distributive/shunting).
  4. Kislitsina ON, Rich JD, Wilcox JE, et al. Shock - Classification and Pathophysiological Principles of Therapeutics. Curr Cardiol Rev. 2019;15(2):102-113.
    despite the restoration of normal mean arterial pressure (MAP) in both hypovolemic and cardiogenic shock by these compensatory measures, the MVO2 is often decreased in both of these types of “cold shock”.
  5. Zachary JF. Mechanisms and Morphology of Cellular Injury, Adaptation, and Death. In: Pathologic Basis of Veterinary Disease. 6th ed. Elsevier; 2017:2-43.e19.
    An infarct, which is necrosis due to regional loss of blood supply, is recognized because it assumes the shape of the vascular field—rhomboidal in many tissues (e.g., lung or skin) or conical (wedge shaped in two dimensions) with its base at the edge of the spleen
  6. Gagno G, Padoan L, D'Errico S, et al. Pulmonary Embolism Presenting with Pulmonary Infarction: Update and Practical Review of Literature Data. J Clin Med. 2022;11(16):4916.
    When a pulmonary artery is occluded, the pressure in bronchial arteries increases to perfuse pulmonary capillaries
  7. Chung AG, Frye JB, Zbesko JC, et al. Liquefaction of the Brain following Stroke Shares a Similar Molecular and Morphological Profile with Atherosclerosis and Mediates Secondary Neurodegeneration in an Osteopontin-Dependent Mechanism. eNeuro. 2018;5(5):ENEURO.0076-18.2018.
    In response to ischemia, the brain degenerates by the process of liquefactive necrosis while the heart degenerates by coagulative necrosis

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