Gram-positivos de relevância clínica: do estafilococo ao tétano
Seis revisões abertas, um gênero por vez: o que um S. aureus isolado de cultura operatória significa e como a TSST-1 provoca choque; as quatro faces do estreptococo do grupo A (superficial, tóxica, invasiva e pós-infecciosa) e o que a ciência ainda não definiu sobre a febre reumática; a colonização, a cápsula e a vacina conjugada do pneumococo; o enterococo que sai do intestino depois do antibiótico; a Listeria, que vive dentro da célula; e a toxina tetânica que tira o freio do neurônio motor. Ficam de fora a identificação laboratorial (Gram, catalase, coagulase, Lancefield), Bacillus, Corynebacterium e os demais clostrídios, a resistência adquirida e o tratamento.
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Essential
- Faringite por GAS que não é tratada.
- Há forte apoio para a febre reumática como doença autoimune, com participação de anticorpos e clones de células T com reatividade cruzada; os mecanismos moleculares das sequelas seguem sem definição conclusiva.
- Febre reumática aguda: artrite (60 a 80% dos casos), cardite (30 a 45%) e/ou sintomas neurológicos como a coreia de Sydenham (10%).
- Dano cardíaco de longo prazo, a cardiopatia reumática.
- O enterococo é comensal normal do intestino e ganha papel de destaque nos processos infecciosos de pessoas com sistema imune comprometido.
- Vancomicina, cefalosporinas e antimicrobianos com ação anti-anaeróbia são os agentes mais relatados como fator de risco para ERV, embora os estudos tenham resultados divergentes; os que atingem anaeróbios podem favorecer a colonização por ERV ao suprimir a flora anaeróbia.
- A administração de antimicrobianos a pacientes internados frequentemente estabelece a dominância (maior densidade) de enterococos resistentes à vancomicina (ERV) no trato gastrointestinal; o glicopeptídeo pode facilitar que portadores de ERV passem a transmissores.
- A maior densidade facilita a disseminação por contaminação fecal do ambiente hospitalar: superfícies e mãos de profissionais e visitantes.
- Enterococos intestinais podem romper a barreira intestinal, atravessar o fígado e alcançar a corrente sanguínea.
- Esporos do Clostridium tetani, bacilo anaeróbio, sobrevivem no solo e infectam por contaminação de feridas; o bacilo produz a toxina tetânica (tetanospasmina).
- A toxina é uma metaloproteinase zinco-dependente que age sobre a VAMP (sinaptobrevina), proteína necessária à liberação de neurotransmissor pela fusão das vesículas sinápticas.
- Ao contrário da toxina botulínica, sofre transporte retrógrado extenso nos axônios dos neurônios motores inferiores e chega à medula espinhal ou ao tronco encefálico.
- É captada por terminais de neurônios inibitórios GABAérgicos e/ou glicinérgicos, e a liberação de neurotransmissores inibitórios fica bloqueada: os neurônios motores inferiores ficam desinibidos.
- Rigidez e espasmos musculares: trismo, disfagia, opistótono ou rigidez da musculatura respiratória, laríngea e abdominal, que pode causar insuficiência respiratória.
In the clinic
- Infecção superficial (garganta e pele) · É a grande maioria das doenças por GAS: faringite e impetigo. No impetigo, pústulas que crescem e se rompem formam crostas espessas cor de mel. · O GAS fica nos epitélios da garganta e da pele; as doenças invasivas têm origem na capacidade do GAS de romper barreiras epiteliais.
- Faringite com toxina (escarlatina) · Ocasionalmente a faringite vem acompanhada de escarlatina. · Pensa-se que resulte de infecção por uma cepa de GAS que secreta exotoxinas pirogênicas estreptocócicas codificadas por bacteriófago, sobretudo a SpeA.
- Doença invasiva · O GAS pode causar, menos comumente, fasciíte necrosante, artrite séptica, pneumonia, meningite, abscesso, osteomielite, endocardite e peritonite, com alta morbimortalidade; o choque tóxico estreptocócico (STSS) aumenta a mortalidade. · O GAS tem capacidade de romper as barreiras epiteliais.
- Sequelas pós-infecciosas imunomediadas · O GAS pode desencadear glomerulonefrite pós-estreptocócica aguda, febre reumática aguda e cardiopatia reumática; a febre reumática pode seguir uma faringite por GAS não tratada. · São distúrbios imunomediados que vêm depois da infecção, e os mecanismos moleculares dessas sequelas ainda não foram definidos de forma conclusiva.
- Cultura de espécime operatório (prótese articular) · O S. aureus praticamente nunca é um isolado não patogênico nem contaminante, ao contrário dos estafilococos coagulase-negativos e dos propionibactérios; um único isolado, no contexto clínico apropriado, pode ser considerado diagnóstico. · Para os organismos em conjunto, três espécimes operatórios positivos dão 95% de probabilidade de infecção e um só espécime, 13%; como o S. aureus quase nunca é contaminante, um único isolado já pode bastar.
- Síndromes em que é causa líder · Bacteremia e endocardite infecciosa, além de infecções osteoarticulares, de pele e partes moles, pleuropulmonares e relacionadas a dispositivos. · É um patógeno de múltiplos sítios e uma das principais causas de infecção de corrente sanguínea e de endocárdio.
- Pele e partes moles · É o patógeno mais isolado de infecções de sítio cirúrgico, abscessos cutâneos e celulite purulenta. · Sua importância cresceu nos 15 anos anteriores a 2015 (segundo a revisão de 2015) com a epidemia mundial de infecções de pele e partes moles por MRSA adquirido na comunidade.
- Endocárdio · É a causa mais comum de endocardite infecciosa no mundo industrializado, e o principal fator de risco é o contato com o serviço de saúde. · O nicho de infecção nasce de dano ao endotélio cardíaco (trauma direto, como cateteres e eletrodos, ou inflamação), e as clumping factors A e B, proteínas de ligação ao fibrinogênio, são chave para a aderência e a colonização do tecido valvar.
- Cepas produtoras de TSST-1 · Algumas cepas secretam a exotoxina da síndrome do choque tóxico (TSST-1), que provoca ativação de células T em larga escala e liberação maciça de citocinas. · A TSST-1 liga cruzadamente o receptor de células T ao MHC de classe II nas células apresentadoras de antígeno.
- Portadores na nasofaringe · Até 27–65% das crianças e menos de 10% dos adultos são portadores, em relação comensal com o hospedeiro. · A colonização da via aérea superior é pré-requisito tanto para a transmissão a outras pessoas quanto para a doença invasiva no portador.
- Passagem de colonizador a patógeno · A prominência do pneumococo como causa de doença vem da combinação de altas taxas de portadores, adaptabilidade genética e capacidade de passar de uma interação comensal a uma patogênica. · É um patógeno oportunista extracelular, Gram-positivo, que coloniza as superfícies mucosas da via aérea superior.
- Cápsula · A cápsula dificulta a aderência e a invasão das células do hospedeiro, mas o pneumococo reduz marcadamente a espessura da cápsula quando está em contato próximo com células epiteliais e durante a invasão. · Estericamente, a cápsula pode impedir a interação entre a ChoP da parede ou proteínas de superfície e seus receptores no hospedeiro; além disso, inibe a opsonofagocitose.
- Vacina conjugada · Tem sido muito eficaz em prevenir doença pneumocócica invasiva e reduziu o portador e a transmissão em crianças imunizadas, o que também protege não imunizados (imunidade de rebanho); a proteção é incompleta, e uma questão adicional é o aumento de sorotipos não vacinais na colonização e na doença (substituição de sorotipos). · A formulação cobre só parte dos tipos capsulares, e a substituição é consequência da pressão imune exercida pelo uso amplo da vacina.
- Quem adoece de forma invasiva · Os grupos de risco bem conhecidos são gestantes e neonatos, idosos e imunocomprometidos. · A doença é essencialmente alimentar; as formas invasivas são a listeriose da gestação e do neonato (cerca de 14% dos casos), a bacteremia (52%) e a infecção do sistema nervoso central (31%).
- Como chega ao hospedeiro · A listeriose é contraída sobretudo pela ingestão de alimentos contaminados, como embutidos, laticínios, sanduíches pré-embalados, peixe defumado a frio, vegetais preparados, saladas e frutas. · A bactéria é resistente: sobrevive a frio, acidez e altas concentrações de sal, e é encontrada no solo, na água e nas fezes de animais e de humanos.
- Dentro da célula do hospedeiro · Depois de internalizada, a listeriolisina O e as fosfolipases A e B lisam a membrana do vacúolo fagocítico; a proteína ActA recruta complexos Arp2/3 da célula e induz a motilidade por actina, que impulsiona a bactéria para as células vizinhas. · O ciclo intracelular tem quatro etapas: invasão da célula, escape do vacúolo fagocítico, proliferação intracelular rápida e motilidade por actina com disseminação célula a célula.
Test yourself before moving on
Uma prótese de quadril é reoperada por suspeita de infecção e a cultura do tecido periprotético cresce Staphylococcus aureus em um único espécime. Você a trata como possível contaminação? Compare com o achado de um estafilococo coagulase-negativo.
The answer stays in Assessment, with no spoiler here.
Answer in AssessmentSources (6)
- Walker MJ, Barnett TC, McArthur JD, Cole JN, Gillen CM, Henningham A, et al. Disease manifestations and pathogenic mechanisms of Group A Streptococcus. Clin Microbiol Rev. 2014;27(2):264-301.
GAS causes a diverse range of human infections, both benign and serious, which include pharyngitis, impetigo, cellulitis, scarlet fever, puerperal sepsis, bacteremia, pneumonia, streptococcal toxic shock syndrome (STSS), necrotizing fasciitis, and endocarditis.
- Tong SY, Davis JS, Eichenberger E, Holland TL, Fowler VG Jr. Staphylococcus aureus infections: epidemiology, pathophysiology, clinical manifestations, and management. Clin Microbiol Rev. 2015;28(3):603-661.
However, S. aureus is virtually never a nonpathogenic isolate or contaminant (e.g., in comparison to coagulase-negative staphylococci and propionibacteria).
- Weiser JN, Ferreira DM, Paton JC. Streptococcus pneumoniae: transmission, colonization and invasion. Nat Rev Microbiol. 2018;16(6):355-367.
Streptococcus pneumoniae (also known as pneumococcus) is a Gram-positive, extracellular, opportunistic pathogen that colonizes the mucosal surfaces of the human upper respiratory tract (URT).
- Sangiorgio G, Calvo M, Migliorisi G, Campanile F, Stefani S. The Impact of Enterococcus spp. in the Immunocompromised Host: A Comprehensive Review. Pathogens. 2024;13(5):409.
The Enterococcus genus consists of normal gut commensals, which acquire a leading role in infective processes among individuals with compromised immune systems.
- Koopmans MM, Brouwer MC, Vázquez-Boland JA, van de Beek D. Human Listeriosis. Clin Microbiol Rev. 2023;36(1):e0006019.
but well-known risk groups are pregnant women/neonates, the elderly, and immunocompromised people
- Hassel B. Tetanus: pathophysiology, treatment, and the possibility of using botulinum toxin against tetanus-induced rigidity and spasms. Toxins (Basel). 2013;5(1):73-83.
The muscular rigidity and spasms of tetanus are caused by tetanus toxin (tetanospasmin), which is produced by Clostridium tetani
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